Yo! Comemorando o aniversario da Anime Pró, o site vai dar mais um grande passo, corajoso, tanto para a própria HP quanto para os quadrinhos brasileiros em si. Com o concurso Ação Total, coordenado pelo colega Alexandre Lancaster, o Anime Pró pretende abrir as portas para os talentos escondidos do país, coisa que as grandes editoras não fazem nem de graça! Pra mim, é a chance que eu não tive na adolescência.
Torço pelo sucesso e peco mesmo que os grandes talentos que trafegam pelo site dêem a cara pra bater junto com o Lancaster nesse projeto! Boa sorte!
O assunto me fez voltar a memória exatamente pra minha adolescência, quando eu desenhava feito doido. Meu sonho era, e ainda é, o de publicar minhas historias, ver minhas idéias no papel e o que elas provocam nas pessoas. Estaria satisfeito se eu um dia encontrasse alguém que me apertasse a mão e dissesse que decidiu virar quadrinhista por causa de uma historia minha, da mesma forma que eu um dia, decidi isso.
Acredito que tanto HQs quanto filmes, livros, etc., são matéria pra sonhos. Existem outros gêneros, claro, mas pra mim, o ideal de uma historia é fazer a pessoa viajar por alguns minutos ou horas a fio, num mundo particular, ditado apenas pela imaginação do autor e sua interação com o leitor.
É o que me fez deixar o Brasil e vir ao Japão. Por que quando eu estava no país, não tinha a menor perspectiva de publicar no país, nem ao menos uma historia curta. Os poucos concursos que tinham não eram concursos de amadores, eram de busca de profissionais. Não havia meios para se estudar ou saber o que conta ou não nos critérios de avaliação dos concursos. Não tinha porta pra se bater à cara. Não tinha nem como evoluir! Pode ver, quem publica no país, se não é gente que já está de alguma forma enraizada no meio, com QI (quem indica), são os velhões, com muitos anos estudando por conta própria e publicando fanzines por ai.
Vim ao Japão buscando não a gloria do "maior mercado" de quadrinhos do mundo. Mas uma mínima perspectiva de ser avaliado e alavancado, e possivelmente, viver do que eu gosto de fazer: criar estórias. Simples assim. Não é uma escolha fácil, ainda mais sabendo das chances mínimas. Eu tive que deixar uma vida pra trás, a cidade que eu passei minha infância, meus estudos, que não valem de nada aqui, uma perspectiva de futuro estável. Eu podia ter ido a uma faculdade e virado "alguma coisa diplomado" e viver tentando esquecer meus sonhos. Mas provavelmente, eu iria me arrepender no futuro. E se arrepender de sua vida é o pior destino que eu posso imaginar.
Voltando a minha adolescência, ou melhor, dando um breve resumo de como eu decidi que queria contar historias. Provavelmente veio da época em que eu desenhava em papel de embrulho, grampeava e mostrava pros amigos e pra professora, isso ainda criança. Minha mãe foi desenhista antes de casar, numa época em que tudo era desenhado a mão, sem computador e eu vivi num ambiente onde traços num papel sempre foram comuns. Provavelmente por isso, eu sempre gostei de desenhar.
Quando eu passei a ler quadrinhos mesmo, com X-Men, comecei a copiar, lia tantas vezes a mesma edição que eu sabia de cor as falas de cada balão de cada pagina. No ginásio, junto de colegas da escola, comecei a fazer fanzines, bolar historias com mais seriedade, já que não eram mais feitas só como passatempo. E, aos quinze, a gente tirou copias e distribuiu pela primeira vez. Dos quinze aos dezoito, minha vida era noventa por cento quadrinhos. E eu trabalhava e estudava! Desenhava de madrugada, às vezes sem dormir, sem conseguir dormir sem terminar uma certa pagina, sem colocar no papel uma certa idéia...
A gente ia pra convenções com nossos fanzines nos braços, fizemos camisetas pra aparecer mais, caímos de cara no mundo dos quadrinhos, pela porta dos fundos. Mas quebramos a cara. Claro, a gente se esforçava, desenhava, escrevia, treinava, estudava, se matava mesmo. Mas era visível a distancia que a gente tinha de gente que publicava. CLARO! Nos éramos apenas estudantes, sem formação, sem tutor, sem ajuda, comprando revistinhas de "Aprenda a desenhar..." achando que isso iria dar chances pra gente. Não num mercado que não lapida amadores.
Você ouve coisas como "não gosto disso que você fez", "melhore seu XX" quando busca por ajuda. Não culpo ninguém por isso, claro. Mas não me ajudou muito. Pra mim, os melhores conselhos que já ouvi vieram da vez que eu encontrei com o Daniel HDR e com o Eduardo Muller, numa convenção. A gente sentou, tinha muitos outros artistas, inclusive o Edu, que desenhou Victory (que na ocasião, eu vi os originais e babei). Durante o papo, rolava muita coisa que você não ouve, sobre a forma que uma pagina é desenvolvida, idéias... E é essa interação com quem sabe que te ensina mais do que conselhos soltos jogados em um minuto durante uma ocupada convenção. Por isso que eu acho que as listas de discussão da net quebram um galhão! Claro, tem muitas listas, algumas cheias de "estrelas", pentelhando todo mundo, outras, cheia de ego, sem nenhuma experiência. Mas boas comunidades podem realmente te expandir o horizonte.
Terminando o colégio, eu já havia decidido vir ao Japão. Foi uma nova fase da minha vida, em vários sentidos. Aprendi muita coisa e tive muito tempo pra treinar e motivações. Minha meta no momento é conseguir alguma coisa, mesmo que seja uma citação, nos concursos que a Shonen Jump promove.
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Mudando a direção do papo, vou falar um pouco sobre o cobiçadissimo concurso da Jump. Ei, é aquela lá do Dragon Ball? Pois é. É a revista que mais vende no Japão, o periódico semanal que mais vende no país? É. É o maior concurso de mangá do mundo? É sim. Então, o que eu to fazendo aqui? To dando a cara pra bater!
Os concursos da Shonen Jump são divididos em dois. O primeiro é o famoso e tradicional Akatsuka/Tezuka Shou, o prêmio que revelou a maior parte das estrelas da Shonen Jump. Acontece duas vezes por ano. O segundo é um novo concurso, mensal, chamado Jyuniketsu Shinjin Mangashou, uma premiação que tem os próprios autores da Shonen Jump como juizes. O autor que for juiz ainda escreve uma coluna sobre algum assunto do mangá, pra ajudar os aspirantes a mangaká. Isso é de grande ajuda, pois é de gente de dentro, que conhece coisas que a gente não tem nem como imaginar.
Mas o concurso cobiçado não é lugar apenas de gente sonhando ser mangaká. A premiação desses concursos é um grande valor em dinheiro, o que acaba atraindo muita gente em busca do dinheiro. Um exemplo é o autor de Video Girl Ai, Masakazu Katsura, que enviou um trabalho para a Shonen Jump por que queria comprar um aparelho de som que era caro demais pra um moleque de dezoito anos. Hoje, o prêmio dá pra comprar não só um som, mas até um carro pra ir buscar o aparelho na loja...
Tanto um concurso quanto o outro é dividido em duas categorias: Gag Manga e Story Manga. Enquanto um lida com mangás que tem como principal atração as piadas, o segundo, tem como principal ponto de importância a estória. É o que muitas vezes, difere dos concursos que a gente vê no Brasil. O desenho, claro, conta pontos, mas o que mais te aproxima do prêmio é uma boa historia.
Agora, vou explicar um pouco os critérios de avaliação de um mangá de historia nos concursos. Os concursos da Jump têm seis critérios distintos de avaliação. Vou descrever da forma que eles descrevem.
- Desenho. A habilidade em desenhar um personagem carismático e suas expressões.
- Estória. Se você consegue ter boas idéias e criar reviravoltas.
- Personagem. Criação de personagens que atraiam os leitores com suas peculiaridades
- Organização. Se você consegue fazer sua historia funcionar dentro do numero de paginas.
- Narrativa. O uso dos quadros e da diagramação para trazer o leitor pra dentro da historia.
- Originalidade. A sua diferença nos traços ou historia entre outros autores.
Não sei se foi possível reparar, mas a Jump deixa bem claro que o que importa mesmo é fazer os leitores entrarem na historia. O desenho, mesmo ele, não é descrito como "tecnicamente perfeito" ou "habilidades artísticas". O desenho é importante por que o visual conta muito na hora de fazer um personagem carismático, que atrai leitores. Todo mundo tem seu personagem favorito, e as vezes, lê um mangá só por causa de seu personagem, mesmo em fases ruins.
Toda a estrutura de um mangá é feito para o leitor sentir necessidade de ler o mangá. Se o desenho é para criar um visual que atrai, a personalidade do personagem é para dar substancia a imagem, a narrativa é para tornar a leitura rápida e dinâmica, a organização é para impedir que a história pareça cortar no meio ou faltar pedaços exatamente da estória, que é o que deve dar valor ao personagem e fazer ele ter vida. Originalidade é o toque final.
Pode parecer fácil, mas isso torna o concurso mais difícil ainda. Num concurso que pede apenas que se faça uma historinha bem desenhada, é bem mais fácil conseguir algo. Por que desenhar bem é uma coisa mais compreensível do que esse "prender o leitor" que os concursos japoneses pedem. Desenhar bem é simplesmente ter uma boa anatomia, ter um traçado bonito, técnica! Mas exatamente isso, que é o desenho perfeito que se busca, por exemplo, numa HQ americana, é considerado dispensável no Japão. Eles dizem que a técnica é algo que eles podem ensinar, o que eles buscam é um mangaká, alguém que faz mangá.
Vendo os vencedores dos concursos da Jump, podemos ver em que categorias ele se destacou e a avaliação dos juizes. A constante entre os vencedores é narrativa e personagem. Com um circulo, o resultado foi bom. Com dois, foi ótimo. Em geral, mesmo os vencedores não conseguem um circulo em mais de duas categorias.
A avaliação, no caso do Jyuniketsu, mostra o que realmente é visto por eles e o que deve melhorar para a próxima tentativa, ou para um futuro já como mangaká. Enquanto os autores avaliam as historias pelo fator diversão, o representante da editora avalia os pontos mais técnicos. Por exemplo, pede para criar personalidades mais distintas para que a estória ganhe variedade e novas possibilidades. Desenhar com mais impacto os alimentos num mangá de cozinha. Fazer o protagonista ter algum ponto de mudança para que sua personalidade possa ser mais bem explorada. Os editores ainda levam em conta a idade. Um garoto de quatorze anos que desenha bem tem muito mais tempo pra aprender mais ainda do que um de vinte.
Poderia falar em seguida, da parte Gag Manga e dos concursos de escritores que tem, mas queria me centrar no que interessa no momento. Fica pra uma próxima!
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Para terminar, queria desejar a todos que vão participar do concurso, boa sorte! Treinem muito, elaborem ao máximo sua historia, seus personagens e seu ambiente que tenho certeza que o Brasil tem tantos ou mais talentos que qualquer outro país. Só precisamos cultivá-los!
Fabio Satoshi Sakuda, F/X